JOÃO CALVINO FALOU EM LÍNGUAS?

em quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Presbítero Bennet Brandon


Quando li o clássico de Jack Deere "Surpreendido com a voz de Deus" fiquei surpreso com as suas descobertas sobre as "embromações" arquitetadas por alguns teólogos e escolas cessacionistas, os quais tentaram de todas as formas esconder, apagar ou adulterar certas manifestações espirituais típicas do pentecostalismo, que tiveram lugar na vida dos personagens da reforma protestante, como também nos anos seguintes com o surgimento dos grandes avivalistas. Jack Deere apresentou várias fontes para confirmar as suas acusações. Infelizmente esta obra já não está mais disponível em língua portuguesa, ela foi simplesmente boicotada e retirada de circulação, logo depois da sua primeira edição em português. [1].

Recentemente certo site calvinista passou a questionar uma citação do livro Heróis da Fé (CPAD), na qual o seu autor (Orlando Boyer) afirma que Lutero possuía e fazia uso dos dons espirituais. O site afirmou que a citação de Boyer teria sido inventada. Os cessacionistas parecem gostar do seguinte paradigma: "Na falta das evidências de uma coisa, aquela coisa não existe" - O problema é que este paradigma é também o modus operandi do ateísmo. No caso supracitado faltou um pouco mais de pesquisa. Na verdade Boyer não inventou aquela informação, ele apenas citou o historiador alemão luterano Dr. Phd. Theodor Sauer, que afirma isso na página 400 do volume 3 de sua obra magna Geschichte der Christlichen Kirche (História da Igreja Cristã), datada de 1859. Em inglês, está na página 406. Como pentecostal, Boyer não poderia deixar de mencionar essa curiosidade, mas prudentemente não a cita como informação incontestável.

Vejamos um relato surpreendente sobre João Calvino, publicado pelo Pr Silas Daniel no portal CPAD News:

"(...)Em sua edição de 24 de março de 1975, o jornal The Paper, uma publicação do Seminário Teológico Gordon-Conwell, nos EUA, trouxe um artigo, na sua página 6, intitulado “Calvin Speaks Unknown Tongue” (“Calvino Fala Língua Desconhecida”), de autoria de Quent Warford. [2].

No referido artigo, Warford começa falando sobre as muitas perguntas que estavam sendo feitas naqueles dias depois da revelação, vinda do Episcopal Divinity School, de que ninguém menos que Teodoro Beza, em um trecho do original em latim de sua conhecida biografia de Calvino, afirma que este teria falado em línguas enquanto orava. Para quem não sabe, Beza foi contemporâneo e amigo dos mais próximos de Calvino – na verdade, um confidente deste. A biografia escrita por seu amigo e confidente Teodoro Beza é intitulada ‘De Vitam Iohannes Cauvin’ (“A Vida de João Calvino”).

Diante da revelação, Warford confessava que “pessoalmente” achava “ridícula” qualquer ideia de que Calvino havia “experimentado a glossolalia” e que, “portanto, a única coisa lógica a fazer era seguir o conselho do meu querido professor de História da Igreja e ir à fonte primária”.

Warford conta que, no começo, teve certa dificuldade de chegar até à obra, porque o volume que supostamente continha as informações de expressões de êxtase de Calvino estava “no Cofre da Sala de Livros Raros da Biblioteca da Episcopal Divinity School” e “entrar no Cofre envolve uma grande dose de burocracia”. Mas, depois de uma ajuda, conseguiu chegar à obra.

Diz Warford que Beza contava que Calvino, em suas orações, falou uma língua desconhecida. E por ser um “linguista habilidoso”, Calvino procurou definir que língua era aquela que falara. “Incapaz de rastreá-la, ele confidenciou a Beza que, embora a linguagem tivesse uma característica hebraica, ele ainda temia que tivesse falado uma 'lingua barbaroum' ["língua bárbara"], ou seja, ele temia ter falado em uma língua maldita, como a que era falada pelos cananeus”.

Warford termina informando que seu colega Ken Macari o ajudou na tradução do latim e que o fato foi narrado por Beza sem muito destaque, “apenas algumas frases em ‘De Vitam Iohannes Cauvin’”. E acrescenta, tentando suavizar a importância do registro: “A preocupação de Calvino era apenas uma questão de linguística. Portanto, não há fonte primária com material suficiente para construir um caso de uma maneira ou de outra”(...)" [3].

Jeff Doles (do Blog Holly Spirit Miracles), publicou um relatório sobre o caso. A postagem do ano de 2010 ainda está online e possui alguns comentários muito interessantes. [4].

Colin Maxwell, um missionário presbiteriano que atua na Irlanda do Norte, questionou sobre os motivos pelos quais Calvino não teria apresentado publicamente as evidências daquele dom espiritual. Veja a tradução dos comentários:

"(...)1) Esta é a primeira vez que eu li essa afirmação e, embora eu não seja um "estudioso de Calvino", tenho lido razoavelmente sobre sua vida e também sobre o debate das línguas. Eu realmente tenho minhas dúvidas sobre a alegação, mas obviamente não gostaria de viver em negação se fosse verdade.

2) Mesmo que fosse verdade, Calvino obviamente não fez um grande acordo espiritual sobre isso. No que diz respeito ao seu relatório, ele confidenciou em seu leito de morte a Beza, seu amigo e amigo muito próximo.

3) De fato, seu medo imediato era que ele fosse usado a linguagem amaldiçoada de Canaã, que parece não ter que envolver sua alma em êxtase espiritual. Mesmo que, por algum fenômeno estranho, ele apresentou como uma língua que ele temia, mas é evidente que ele não a procurou, ele não a promoveu.

Nenhum de nós sabe o que um dia pode trazer. Talvez amanhã, a experiência de Calvino possa ser minha. Nesse caso, espero que eu também o sujeite ao ensino das Escrituras e aceite ou rejeite, em vez de dobrar as Escrituras para se adequar à minha experiência. (...)"

Jeff Doles prontamente respondeu ao questionamento proposto, com mais dados muito interessantes sobre como Deus atuava naqueles tempos em que a reforma protestante estava acontecendo.

"(...)1 - A primeira vez que ouvi falar dessa possibilidade na vida de Calvino foi em um artigo de Ben Witherington III, "O que Calvino acerta", na edição de 9 de setembro de 2009 do Christianity Today (p. 33-34). (...)[5].   

2- Não, Calvin não fez um grande acordo espiritual - ele nem tinha certeza do que era. O fato de ele ter algum medo sobre isso não prova que era uma manifestação divina. Há muitas ocasiões na Bíblia em que os homens de Deus temiam algum milagre divino e precisavam ser tranquilizados com palavras como "Não temas". Por exemplo, quando Jesus andou sobre a água, os discípulos gritaram de medo; Jesus disse: “Sou eu; não tenha medo."

3- Não, Calvino não buscou a experiência, não entendeu a experiência e não a promoveu. Talvez parte de sua reticência seja que aqueles que sabiam falar em línguas na época eram católicos romanos. Por exemplo, Vincent Ferrier (1357-1419), que experimentou a manifestação de línguas em sua obra de pregação, era dominicano. Francis Xavier (1506-1552), contemporâneo de Calvino que também experimentou esse dom em sua obra missionária, era jesuíta. Calvino e os outros primeiros reformadores eram avessos aos milagres que estavam sendo realizados na Igreja Católica Romana.

Uma das coisas incompreendidas sobre falar ou orar em línguas é que não se trata de "envolver" a alma de alguém em "êxtase espiritual". Isso certamente pode e acontece, mas é incidental, não é uma característica necessária. Em vez disso, está falando com Deus pela edificação dos crentes, seja pela congregação (com interpretação) ou por si mesmo (ver 1 Coríntios 14: 2-5).

Devemos sempre sujeitar nossas experiências às Escrituras. O Espírito de Deus nunca fará nada que esteja desalinhado com a Palavra de Deus. Na medida em que as Escrituras nos ensinam sobre o Espírito Santo que se manifesta nos crentes com o dom de línguas - falando em línguas não aprendidas - ter uma experiência assim não estaria em desacordo com a Palavra de Deus ou o Espírito de Deus. Não é necessário dobrar as Escrituras. Muitos reformados experimentaram o dom de falar em línguas desde os dias de Calvino. (...)"

O vento continua soprando onde quer... Ninguém pode impedi-lo.

Que Deus vos abençoe com a gloriosa paz de Cristo!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] Jack Deere, Surpreendido com a Voz de Deus (São Paulo: Editora Vida, 1998). Tradução do original em inglês Surprised by the Voice of God (1996).
[2] Recorte extraído do The Paper,  24 de março de 1975 (página 6) - Seminário Teológico Gordon-Conwell. Quent Warford, “Calvin Speaks Unknown Tongue" - (►Confira Aqui).
[3] Trecho em vermelho extraído do comentário do Pr Silas Daniel (CPAD NEWS). (►Confira Aqui).
[4] Did John Calvin Speak in Tongues? (►Confira Aqui).
[5] What Calvin Gets Right - Christianity Today (p. 33-34) - 9 de setembro de 2009. [Um trecho do artigo está disponível ao público] (►Confira Aqui). Os assinantes do site podem fazer login para ler e baixar a revista completa] (►Confira Aqui).
https://www.christianitytoday.com/ 

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